AR LIVRE

..................................Ar livre, que não respiro!
..................................Ou são pela asfixia?
..................................Miséria de cobardia
..................................Que não arromba a janela
..................................Da sala onde a fantasia
..................................Estiola e fica amarela!

..................................Ar livre, digo-vos eu!
..................................Ou estamos nalgum museu
..................................De manequins de cartão?
..................................Abaixo! E ninguém se importe!
..................................Antes ao caos que a morte...
..................................De par em par, pois então?!

..................................Ar livre! Correntes de ar
..................................Por toda a casa empestada!
..................................(Vendavais na terra inteira.
..................................A própria dor arejada,
..................................- E nós nesta borralheira
..................................De estufa calafetada!)

..................................Ar livre! Que ninguém canta
..................................Com a corda na garganta,
..................................Tolhido da inspiração!
..................................Ar livre, como se tem
..................................Fora do ventre da mãe,
..................................Desligado do cordão!

..................................Ar livre, sem restrições!
..................................Ou há pulmões,
..................................Ou não há!
..................................Fechem as outras riquezas,
..................................Mas tenham fartas as mesas
..................................Do ar que a vida nos dá!

Miguel Torga
Cântico do Homem


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