Pulsação da treva
Fundiu-se a roda do Sol
entre os cedros afilados.
Desfez-se em azuis rosados,
tinturas de tornesol.
Agora, solenemente,
como um corpo que se enterra,
ao som de um sino plangente
desce a noite sobre a terra.
Campânula asfixiante.
Circula um terror nas veias.
Zumbem estrelas em colmeias
num céu alheio e distante.
Numa dormência de cova,
suspensa em leite de Lua,
toda a vida se renova
e a guerra se continua.
Nas marés do protoplasma
flui, reflui, perene e forte.
Espreita as pegadas da morte,
persegue-a como um fantasma.
Cega e surda, impenetrável,
lateja, na terra urdida,
essa coisa inevitável
que é a vida.
..................António Gedeão
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A um ti que eu inventei

É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar gãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr de lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
António Gedeão
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