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Canto da hora do banho

ó mar contente, tão frio
que o verde das ondas e neve
fazes meu corpo tão leve,
no ar, vazio!
meus seios, cabelos tudo é brando!
na mão do mar talhado cerce
vou, como se a um velho comando
desobedecesse!

e raia de leve um sol macio
que ainda não amadurou
frio
de manhã forte e silente
as minhas mãos nem são de gente
são formas de água, de neve
sobre o maillot

.................................Cesariny
Manual de Prestidigitação

AR LIVRE

..................................Ar livre, que não respiro!
..................................Ou são pela asfixia?
..................................Miséria de cobardia
..................................Que não arromba a janela
..................................Da sala onde a fantasia
..................................Estiola e fica amarela!

..................................Ar livre, digo-vos eu!
..................................Ou estamos nalgum museu
..................................De manequins de cartão?
..................................Abaixo! E ninguém se importe!
..................................Antes ao caos que a morte...
..................................De par em par, pois então?!

..................................Ar livre! Correntes de ar
..................................Por toda a casa empestada!
..................................(Vendavais na terra inteira.
..................................A própria dor arejada,
..................................- E nós nesta borralheira
..................................De estufa calafetada!)

..................................Ar livre! Que ninguém canta
..................................Com a corda na garganta,
..................................Tolhido da inspiração!
..................................Ar livre, como se tem
..................................Fora do ventre da mãe,
..................................Desligado do cordão!

..................................Ar livre, sem restrições!
..................................Ou há pulmões,
..................................Ou não há!
..................................Fechem as outras riquezas,
..................................Mas tenham fartas as mesas
..................................Do ar que a vida nos dá!

Miguel Torga
Cântico do Homem






Alegres campos...

Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural
Discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual:
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
Rogando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão sudades de meu bem.

.................................Luís de Camões

Chove...


.............................Chove...

.............................Mas isso que importa!,
.............................se estou aqui abrigado nesta porta
.............................a ouvir na chuva que cai do céu
.............................uma melodia de silêncio
.............................que ninguém mais ouve
.............................senão eu?

.............................Chove...

.............................Mas é do destino
.............................de quem ama
.............................ouvir um violino
.............................até na lama.

..................................................José Gomes Ferreira

Setembro


Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas
enchia a espingarda de chumbo e disparava
contra o silêncio das árvores altas
só para assistir ao espectáculo dos pássaros
em debandada

Experimentava uma exaltação - de que tenho hoje pudor
perante imagens que partem:
fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam
nesses dias distantes nem suspeitava
a vida pode ser interminável

O que deixaste abandonado regressa - aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece
com certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros
que ladram não se percebe como
à porta da velha casa

................................................................José Tolentino Mendonça

Aquela Nuvem

.

.
- É tão bom ser nuvem,
- ter um corpo leve,
- e passar, passar.
.
- Leva-me contigo.
- Quero ver Granada.
- Quero ver o mar.
.
- Granada é longe,
- o mar é distante,
- não podes voar.
.
- Para que te serve
- ser nuvem, se não
- me podes levar?
.
- Serve para te ver.
- E passar, passar.
.
....................Eugénio de Andrade

Regresso

.

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!
.

Contava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.
.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.
.
...........................................Miguel Torga